Nós vivemos em um tempo de tanta potencialidade e de tanta capacidade para o desastre. Vejo com a luz de Espinoza, o que está a passar é basicamente o seguinte:  é que o tal equilíbrio entre os dois afetos, que era preciso manter, o equilíbrio entre medo e a esperança, está desequilibrado totalmente. Há muito medo e pouca esperança, e o que dizia Espinoza é que quando há demasiado medo sem esperança pode ser destrutivo.

Eu realmente tenho esse entendimento, que aliás foi inspirado em Eric Hobsbawn, os séculos nunca começam no primeiro dia de janeiro do primeiro ano do século… a Revolução Industrial em 1830, inaugurando o século XIX, a Primeira Guerra mundial e a Revolução Russa que deram origem ao século XX, o século XXI, claro, teve dois começos: o primeiro teria sido o ataque às torres gêmeas em 2001, depois disseram que o começo teria sido em 2008. Eu devo dizer que foram importantes, mas não para ser uma transformação paradigmática: eu penso que realmente essa pandemia é uma transformação, ela aponta para uma transformação paradigmática. O que ela veio nos dizer é que nós pertencemos a natureza, portanto isso é uma mudança de paradigma.

Como é que nós vamos a partir de agora entender que nós pertencemos à natureza, e que não é a natureza que nos pertence? Se nós pertencemos a natureza, nós temos que cuidar dela.

Nossa vida humana é 0,01% da vida do planeta. É uma vida muito pequena comparada com a vida do planeta, e no entanto arrogamos a destruir o planeta, é crise ecológica, é aquecimento global, é a contaminação dos rios, o desmatamento da Amazônia, a mineração a céu aberto, é isso que está a provocar as pandemias que vão ser cada vez mais recorrentes, e não vamos nos livrar delas, vamos entrar no processo que chamo de pandemia intermitente. O vírus não precisa de passaporte, ele passeia por todo o mundo com a  globalização.

Nem o direito, nem o Estado, nem as nossas ciências se dedicam e podem cobrir toda esta realidade, porque nossa sociedade trata uma parte dela como sub-humana, produzindo uma linha abissal. E o que quer dizer a linha abissal? É uma linha que divide a humanidade da sub humanidade. É praticamente defender a ideia de que nas nossas sociedades não pode haver plena humanidade. E portanto há uma linha abissal que divide aqueles que são plenamente humanos daqueles que são tratados como sub-humanos, que são degradados ontologicamente. E quem é que faz essa degradação? O colonialismo e o patriarcado. São os corpos negros, são os corpos racializados, são os corpos sexualizados e que são efetivamente os corpos que servem, que sofrem degradação ontológica, e são tratados como sub-humanos. Portanto, os nossos instrumentos do direito, dos conceitos da igualdade e da liberdade não se aplicam a eles e elas da mesma forma, porque as ideias liberais que partiram da ideia – aliás que vem desde a renascença – de liberdade, igualdade e fraternidade, consagradas na Revolução Francesa, de fato o pacto concreto não se aplica a todos, nem de longe e nem de perto.

 

Boaventura de Sousa Santos no Lugar, 11 de maio de 2021.

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