“A gente se esforça para que as coisas aconteçam de novo, e trabalha a favor da repetição” 

 

“A literatura é um lugar onde a gente pode imaginar passados, presentes e futuros, principalmente futuros… mesmo que a gente vá falar de um passado, as vezes nem tão bonito e honroso, é sempre com a intenção de não repetir ou ao menos que se possa refletir sobre ele. 

De onde nós viemos, até onde poderiam contar minha história, se eu tenho o privilégio de ao menos tentar saber esse passado, se eu tenho o privilégio de ter um fiozinho desta meada eu vou atrás dela. Porque isso não diz respeito apenas a mim, isso diz respeito a toda população negra brasileira, diz respeito à história negada de todos e todas nós. O que diferencia a vida humana do seu pet é a sua história, a história de vida, de família. Se você tem a história negada, isso é uma forma de animalizar, de tirar sua humanidade… 

Esse ritual da árvore do esquecimento é porque só é ser humano quem tem história. E para escravizar alguém você precisa retirar a humanidade dessa pessoa, você precisa encarar essa pessoa como objeto ou como animal. Quando a gente escreve faz o sentido anti-horário da árvore do esquecimento, faz o movimento de lembrar, de recordar, de devolver história para devolver humanidade, para devolver dignidade, para devolver protagonismo na sociedade brasileira. A população negra e indígena construiu efetivamente o Brasil. 

O que afinal de contas não me disseram? 

 

Precisamos trazer uma África mais poderosa, uma África berço de muita coisa, que foi muito usada, muito vilipendiada, muito explorada, tem muito saber roubado na mão grande mesmo… temos Moçambique… que a gente é tão formado por Moçambique e nem sabe… acessar o conhecimento é aí que a gente sabe que não sabe nada… é uma eterna descoberta e a literatura é uma viagem muito importante para abrir essas portas do conhecimento e de outros povos. 

É um passado que a gente precisa superar. Mas como fazer se não se fala sobre isso? Como virar essa página sem conversar sobre isso fora do lugar comum, de uma forma mais profunda, ir dando rosto, ir dando voz, dando passado, presente e futuro, e dando camadas para esses personagens, profundidade para cada uma dessas pessoas. É muito admirável que a gente não imagine que uma pessoa escravizada numa fazenda de cana de açúcar no século XIX, que ela não pensasse sobre a sua condição… sem contestar, sem guardar nenhum rancor, sem ter um sentimento de vingança… São muitas questões que temos que discutir com seriedade e maturidade. 

Eu acho que a literatura pode trazer isso… A literatura ajuda para que a gente saia da infância do debate, ajuda para que se encare essas questões superando as culpas, mas passando a um resgate realmente. Para que os livros sejam lidos e “olha o Brasil era assim, que bom que não somos mais”. 

 

Sempre que você ler alguma coisa que eu escreva você vai estar lendo coisas de negros. Mas eu não me resumo a isso. As coisas que me atravessam são essas coisas de negros. Isso é arte. Ninguém pergunta para o Primo Levi porque que ele escreveu sobre o que ele escreveu, que era o que atravessava ele, da comunidade dele, do sofrimento dele. Pronto, tá posto isso não se pergunta para um artista. 

Saiu agora a nova versão dos livros de Carolina Maria de Jesus. E Conceição Evaristo escreveu a introdução de Casa de Alvenaria, e ela repete muitas vezes o nome de Carolina. E a revisora diz você não precisa repetir tantas vezes Carolina Maria de Jesus, nós já sabemos que é a Carolina Maria de Jesus. E Conceição: preciso sim porque até hoje eu vou a palestras e as pessoas erram o nome da Carolina e se elas erram é porque não reconhecem o nome desta pessoa neste lugar, então eu vou repetir. Isso é o que acontece com muitos temas e questões, a gente ainda precisa repetir. 

Que lugar ocupa quem saiu de onde estava e não entrou para onde foi? Ficou num meio do caminho, um limbo, o cara foi jogado naquele chão (hoje conhecido como cemitério dos Pretos Novos), mas não chegou a ser escravizado, ele não é nada, é uma alma que vaga, é um nada muito grande. 

Esses trapiches, esse mercado a gente tem que quebrar essas paredes, a gente reproduz esses trapiches e esses mercados em diferentes espaços e das formas mais criativas possíveis. Essas pessoas ainda estão lá. A gente tem uma população gigante que não saiu desse trapiche. Isso é muito chocante, que o Brasil não se incomode de uma forma muito séria com isso. 

Primeiro precisamos descobrir que essas coisas existem. Porque ninguém conta para a gente. Daí vem minha sede de tentar escrever. Como você vai lutar com um inimigo invisível. Você tem uma sensação, tem alguma coisa errada, mas o que que é? O que é esse incômodo que a gente não consegue sair desse lugar? 

A educação resolveria muitas coisas. 

Por isso que, ao final do livro, escrevo deixo para vocês a tarefa de não esquecer, para não repetir, a gente não pode repetir, não pode esquecer porque é também muito maravilhoso ouvir dessas pessoas. É muito maravilhoso ter essa herança. Nós herdamos coisas muito lindas, muitos poderosas. A gente precisa resgatar isso para que a gente tenha orgulho, autoestima enquanto povo, como nação. O dia em que o Brasil fizer as pazes com esse passado, encarar esse passado e valorizar esse passado, tudo vai mudar aqui. 

É preciso acordar. A desumanização é uma doença contagiosa. 

Tem uma coisa africana muito bonita que é o sentido de coletividade. O ocidente perdeu muito isso, as pessoas voltam muito para dentro delas mesmas, como desaprenderam a viver no coletivo e a se importar com o coletivo de alguma forma, entender que faz parte de um todo. Eu acho que essa é a saída para que a gente viva num mundo um pouco menos selvagem. 

 

Eliana Alves Cruz no Lugar em 29 de setembro de 2021. 

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