- A organização genital infantil (Uma interpolação na teoria sexual)
Sigmund Freud (tradução: Anna Beatriz Medici)
- Conferência 33 – A feminilidade
Sigmund Freud (tradução: Renato R. P. de Carvalho)
- A lei da mãe – Ensaio sobre o sinthoma sexual
Geneviève Morel (tradução: Renato R. P. de Carvalho)

.:: MÃE MENINA MULHER ::.

- A mãe não é uma mulher
Ana Lucia de Souza
- Uma dimensão da mãe na experiência analítica
Maria Cristina Vecino Vidal
- Maternidade, função materna e feminilidade
Vera Vinheiro
- O vínculo pré-edipiano
Leila Neme
- Antecedentes da sexualidade feminina
Eduardo Vidal
- Uma certa perversão...
Benita Losada A. Lopes
- Feminilidade: invenção permanente?
Licia Magno Lopes Pereira
- É su!ciente que ela conte
Sergio Becker
- Dissimetria significante
Cristiane Laquintinie Amaral
- A menina e o falo: a escrita de uma leitura
Anna Beatriz Medici
- As marcas no feminino
Celia Nudelman
- A realidade de devastação
Daniela Goulart Pestana
- Entre mãe e !lha: quando os semblants vacilam
Malvine Zalcberg

.:: O DIZER NA CLÍNICA ::.

- Unboxing Helena
Mauricio de Andrade Lessa
- Entre “retalhos, miçangas e !os” – ‘como ela se torna’?
Letícia Nobre
-Uma mulher engolida
Nélida Halfon (tradução: María José Estevez Acuña)
- Do discurso da e!ciência à efetividade do discurso: entrevistas preliminares de uma menina
Mônica Coutinho Herszage
- O que quer uma mãe?
Ana Claudia Vieira Vaz
- Uma menina e sua mãe
Simone Aziz
- “Cantada”
Elisa Carvalho Oliveira

.:: O AUTISMO, UMA REFLEXÃO... ::.

- ‘Indiferença’: um significante para o autismo?
Cacilda Vieira Bruni, Ilana Valente, Licia Magno Lopes Pereira,
Rossely Peres, Vera Vinheiro
- A estátua e o corpo da letra – Construções, nominações e manejos
de objetos topológicos em um adolescente
Claude Garneau (tradução: Analucia Teixeira Ribeiro)
- “... um caçador do deserto”
Benita Losada A. Lopes

.:: ...CONSULTEM OS POETAS ::.

- Sonata de outono
Andrea Bastos Tigre, Maria Cristina Vecino Vidal
- A teta assustada – uma leitura sobre o filme
María José Estevez Acuña
- Criança, desejo e gozo – Um percurso em torno da constituição do sujeito
Iara Barros

Esta publicação traz textos e escritos trabalhados pelo Núcleo de Investigação
Clínica Han$ que, nos últimos anos, orientou seu ensino na Escola
Letra Freudiana entorno da questão do feminino.
Nas primeiras formulações psicanalíticas sobre essa delicada questão,
houve um acirrado debate acerca da função do falo no caminho do ‘tornar-se
mulher’. Dois textos de Sigmund Freud foram traduzidos do alemão especialmente
para esta publicação: “A organização genital infantil”, de 1923, e
“A feminilidade”, de 1932. O primeiro traz o início da questão freudiana
entorno do falo enquanto a conferência de 1932 contém uma elaboração mais
precisa sobre o feminino. Freud não só considerava que a feminilidade constitui
um enigma, como também esperava que as analistas mulheres pudessem
revelar pontos opacos da constituição da menina, sobretudo no que tange ao
laço mãe-!lha. Poderíamos nos perguntar se as dificuldades que os analistas
encontraram nos primórdios da psicanálise não seriam inerentes à própria
questão do feminino.
Propomos mãe menina mulher – nomes do feminino para abordar a diversidade
desse saber que provém de uma inscrição não-toda da mulher em relação
ao falo. A feminilidade traz a marca de uma divisão entre mãe e mulher, e a
menina localiza-se a partir dessa hiância sem tamponá-la. Desde o discurso
analítico, a divisão pode ser interrogada e, ao confrontar-se com a complexidade
do devir mulher, é possível produzir um saber que introduza um novo valor
na dimensão da falta. A questão do feminino apresenta-se para Freud como
guia ante a qual é necessário não recuar, avançando no seu deciframento com
as marcas dos restos da experiência analítica.
Nesta publicação contamos também com a tradução da Introdução do
livro da psicanalista francesa Geneviève Morel, A lei da mãe, um texto importante
para abordar a opacidade do real que perpassa o laço da mãe. Essa lei da
mãe “é feita de palavras enodadas ao prazer e ao sofrimento, ou seja, ao gozo
materno, que são transmitidas à criança desde sua mais tenra idade e se imprimem
para sempre em seu inconsciente, modelando fantasmas e sintomas”.
Geneviève Morel pergunta-se como a criança pode se separar de sua mãe de
outro modo e se subtrair a sua lei, que a encadeia, algumas vezes, pela vida
toda, deixando sempre uma marca decisiva.
As discussões sobre o autismo testemunham através dos casos clínicos a
!xação a esse gozo que não faz laço questionando, radicalmente, a ideia de uma
possível relação de objeto do bebê com sua mãe. Que a psicanálise continue
avançando na prática clínica com o autismo é uma aposta na Escola Letra
Freudiana em um momento preciso, no Brasil e no mundo, em que a ciência
pretende con!nar o autismo a causas genéticas para preservar-se do horror,
como marca do impossível, que o gozo introduz no saber.
Também foram incluídos nesta publicação relatos de casos clínicos, pois
consideramos que a partir da experiência psicanalítica se constrói um saber
que traz a marca de sua incompletude. A aposta do analista é fazer aparecer o
lugar do sujeito, o que implica em localizar a função do objeto no discurso,
precisando, em cada momento, o laço social que vigora. O dispositivo analítico
é o lugar para o sintoma falar e, desse modo, constituir-se como um saber não
muito extenso, porém, dos pontos cruciais da realidade sexual do inconsciente.
Outros escritos são efeito de um trabalho articulado ao cinema, a !lmes
que têm um dizer sobre esses pontos obscuros do laço da menina com a mãe
e da complexidade do sexual no ser falante. Sonata de outono, do diretor sueco
Ingmar Bergman, revela, em sua dimensão mais real, o desencontro essencial
e a turbulência na relação da menina com a mãe. Enlaçadas pelo signi!cante
outono, as imagens vão se sucedendo, articulando desde a crueza do real à
dimensão imaginária e simbólica. Minhas mães e meu pai, !lme americano cujo
título original é !e Kids Are All Right, confronta o analista com o campo de
uma legalidade, hoje em processo de reformulação, no que tange à união dos
sexos e sua repercussão na criança. O que se observa é como a estruturação do
sujeito independe do sexo biológico dos pais, não se tratando de uma questão
de gênero masculino ou feminino. A teta assustada, !lme peruano de Claudia
Llosa, permite escutar no canto de Fausta e de sua mãe a transmissão de um
mito, o real da passagem ‘de menina à mulher’ e o ponto crucial da incidência
da função paterna.
O feminino abre ao real da impossibilidade da relação entre os dois sexos.
O analista opera com o nó borromeano e, portanto, trabalha na direção de
reduzir o sentido. Não se trata, então, de encontrar em mãe menina mulher
signi!cações ou deciframentos daquilo que já está escrito, mas de fazer os
cortes e enodamentos necessários para escrever – na superfície discursiva de
uma análise – o traçado do percurso de tornar-se mulher.