“É sempre a mesma história, mas… nem chego perto de contabilizar de quantas maneiras ela se desenrola. E não porque  seja preciso aprimorá-la, mas porque ninguém quer ficar condenado à mesma coisa… a cada execução, a narrativa se transforma tanto… Tem alguma coisa que, afinal, funciona nessa insistência”.
Julia Wähmann: Cravos (2016)

“Dois anos e tantos meses depois do dia D, o cenário político nacional e internacional torna quase todos os cidadãos vivos demitidos, seja de seus otimismos e sonhos ou de suas tranquilidades e sonos. O desemprego tornou-se endêmico, como uma epidemia que traz precariedades distintas aos contaminados”.
Julia Wähmann: Manual da Demissão (2018)

Os livros partem de uma experiência pessoal, mas se lançam no universo da ficção… A perda é o que está no centro… uma história de amor marcada pelo desencontro, uma mulher e um homem, uma relação instável, feita de muitos silêncios… a dança é o terceiro personagem. Em Pina Bausch, essa insistência dela, essa repetição, ela esgarça uma narrativa… essa forma de dançar tinha muito a ver com a literatura, com a escrita e com a leitura.

A literatura é uma resistência ou é uma insistência… tem um caráter de teimosia, não é fácil fazer literatura no Brasil, cenário que joga contra a leitura. Quem se lança nesse trabalho de escrita, tem um desejo muito grande, uma insistência.

A gente lida muito mal com a tristeza, com um certo recolhimento e eu acho que a literatura tem um papel fundamental de acolher tudo isso… Tanto no exercício da leitura quanto quem se aventura a escrever é isso, te obriga a parar, te obriga a dar um passo pra trás…

Como é que nos lançamos para as artes quando tudo está caindo, em ruínas, desmoronando? … é essa compreensão de como os livros, não só os que escrevi ou que eu venha a escrever, mas sobretudo os livros que eu leio, eles não deixam essa estrutura desmoronar por completo. Eles dão um alicerce para essas travessias malucas.

“Portanto, sim, isto é uma dança. É uma resposta possível e terrivelmente atrasada, eu sei. É um emaranhado de coisas que não contei. Nem para você, nem para O., nem para ninguém a quem tenha endereçado postais, bilhetes, teses. É um pisotear de cravos ou de qualquer outra flor já maltratada, a forma que encontrei de manter vivos nossos jardins”.
Julia Wähmann: Cravos (2016)

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