“Quem deve a carta para quem…?”

Em princípio, a minha motivação era fazer um filme sobre a minha avó, essa personagem, mãe da Anistia brasileira, como protagonista. Ao mesmo tempo, tinha um outro personagem, o meu pai. Ao longo do processo do filme, fui descobrindo que ele não falava sobre ela, apagava completamente o papel dela no caso dele. Parti dessa premissa, de pensar essa relação mãe e filho, a partir do momento em que me deparei com esse silêncio do meu pai. Que foi uma grande surpresa pra mim.

Como representar esse silêncio, a ausência de uma coisa que não está? Construí essa maneira de conseguir colocar isso pra fora através de uma carta que eu escrevia pro meu pai, e essa acabou sendo a estrutura do filme durante muito tempo, essa carta em que eu narrava pro meu pai as minhas descobertas ao longo do processo.

Se meu pai não fala sobre a minha avó, não é uma questão de falar sobre o passado… é um silenciamento mais específico que eu percebi. Enfim, percebi que estava fazendo um filme sobre o silêncio, sobre esse silêncio na memória familiar, essa ideia que me perseguiu, de que o fato do meu pai nunca ter conversado comigo sobre o passado dele é o que gerava esse meu questionamento incessante, e essa minha necessidade de cavucar…

Eu tinha uma pergunta… não haveria uma resposta objetiva pra ela… Por que o meu pai não fala sobre minha avó?; por que que a gente não falou sobre?; por que a gente aceitou esse pacto de Anistia?… eu não tinha respostas objetivas. Passei a entender que, na verdade, me interessava o exercício da formulação de perguntas, o exercício do questionamento, como exercício de elaboração. É um filme que vai deixar lacunas… é um filme composto por silêncios.

“Certos eventos, melhor silenciá-los em nome da paz da família brasileira”. Essa frase ficou muito marcada em mim, e a partir desse discurso do Figueiredo entendi então que existia de fato uma conexão muito profunda entre o que eu via na minha família e o que eu passava a perceber com o nosso processo histórico de não superação desse trauma da ditadura, que é uma história construída a partir do silenciamento, a partir do pacto de esquecimento.

 

Carol Benjamin no Lugar, 1o de abril de 2021.

“Fico te devendo uma carta sobre o Brasil”

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